escreva o título aqui.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Pai, temos um problema
Pai, precisamos tratar de um assunto muito sério.
Eu sei que você nem imagina o que seja. Por você ser assim, sempre tão dedicado, nem passa pela sua cabeça tal acusação.
Mas pai, isso tem que mudar.
No começo achamos que era normal, que era o cansaço, o trabalho, o estresse.
Mas pai, isso tem acontecido demais, e com tal frequência que até nossos vizinhos andam nos evitando.
Outro dia Dona Arlete, do 704, passou por mim e fechou a cara.
Dr. Wilson, do 501, anteontem fez a mesma. E o cachorro dele ainda tentou me morder.
Até Seu Zé, o porteiro, que antes era só sorrisos, hoje não nos abre nem a porta pra passar.
Tive que fazer uma cópia da chave da portaria, pois já me atrasei para o trabalho vezes demais. E até meu chefe veio se demeter na história.
Estamos todos aflitos. Não conseguimos dormir várias noites.
Seu problema invade nossas mentes. Invade nossos sonhos. E não conseguimos pensar em mais nada, senão nisso.
É complicado, mas você precisava saber. Já esperamos tempo demais.
Olha, eu não sei nem como dizer isso.
Mas, pai, você ronca.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Meu herói usa gravata
Quantas vezes você me salvou. De não cair da bicicleta, de colégios de freira, de ter um mau gosto musical.
Quantas vezes
você me pegou no colo quando o choro aumentava, quando eu me machucava, quando
precisava trocar a fralda.
Quantas vezes você torceu por mim nas olimpíadas do colégio, na escolha da carreira, no primeiro emprego e até quando me defendi daquele menino gordinho e maior do que eu na piscina do clube.
Quantas vezes você torceu por mim nas olimpíadas do colégio, na escolha da carreira, no primeiro emprego e até quando me defendi daquele menino gordinho e maior do que eu na piscina do clube.
Admiro seus
poderes de ativar a super paciência, desintegrar o cansaço pra andar no
shopping e fazer mercado, dos seus dedos multiplicadores de dígitos na conta
bancária. Na minha, pelo menos.
Também admiro
seu super conhecimento sobre todos os assuntos, seu super gosto musical e seu
super pão com ovo de manhã.
E suas
ferramentas? Dezenas de utensílios ultra secretos.
Até hoje não sei
para que serve aquele scanner de cartão e nem aquela mesa cheia de botão que
ficam no seu Bat-escritório.
Vovó falou uma
vez de quando você era pequeno e fazia de conta que era o Batman, brincando e
pulando de um móvel a outro.
Hoje, sem uma
capa e uma super roupa colada, você se tornou um herói de verdade. O meu herói.
Porque o mundo
todo pode estar desabando em volta, tudo pode parecer estar chegando ao fim,
estar perdido, mas o que me deixa segura é que você está aí. E isso me dá
forçar para me tornar um dia alguém como você e talvez ser a heroína de alguém.
Sei que pra você
cada dia é uma batalha, seja nas injustiças do trabalho ou em pequenos
conflitos domésticos, e eu agradeço muito por cada ato heróico.
Amo você com
todas as minhas forças e espero poder retribuir tudo um dia.
Feliz Dia dos
Pais!
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Coração verde e amarelo
Não faz muito tempo que eu via as pessoas pintarem os rostos de verde e amarelo, torcerem com fervor e se emocionarem ao ouvir do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante.
Temo pela
nostalgia a frente da saudade e em me tornar mais uma daquelas pessoas que
dizem aos sete ventos que no meu tempo era melhor, como se esse espirituoso apego
a pátria fosse ficar pra trás com o passado.
Não quero perder
a esperança. Quero reunir de novo a família e os amigos num caloroso domingo a
tarde e ver todos de rostos pintados, vibrando, torcendo e até sofrendo.
Sim, sofrendo.
Sofrendo a cada ponto e cada jogo perdido, cada medalha inalcançada e cada falha do juiz, colocando ou não a mãe dele na história, pensando em como isso aconteceu e que o nosso time era melhor.
Sofrendo a cada ponto e cada jogo perdido, cada medalha inalcançada e cada falha do juiz, colocando ou não a mãe dele na história, pensando em como isso aconteceu e que o nosso time era melhor.
Aliás, o maior
de meus medos é de que todos paremos de sofrer. Será o fim do último suspiro de
esperança. É o desapego tomando conta do que antes chamava-se admiração.
Por isso, meu
apelo não é para que todos ignorem os problemas que o Brasil vive hoje. Não
peço para que em 2016 todos finjam que está tudo bem e que o ano inteiro é
carnaval só para que todos pensem que aqui é um lugar maravilhoso e que não
existem problemas.
Mas afinal, quem não tem? Que nação não tem problemas?
Estou cansada desse complexo de inferioridade que tem o brasileiro. De pessoas que acham que só aqui tem corrupção, violência e desigualdade.
Não que esses problemas tenham de ser ignorados, mas pensar que eles só existem por aqui, que só nós brasileiros vivemos esses problemas é estigmatizar demais a nós mesmos.
Meu apelo é para
que todos os que também se sentem como eu, ao invés de ficarem relembrando o
passado de um jeito nostálgico, possam revivê-lo em 2016 e ter orgulho do seu
país, da sua origem, da sua lingua e dos seus costumes.
Afinal, antes de
qualquer problema estrutural e governamental, esses vieram antes e melhor,
fazem e sempre fizeram parte de você.
domingo, 24 de junho de 2012
Pátria Amada, Brazil.
– Olá. Bem vindo ao Brazil. Posso anotar o seu pedido?
– Eu vou querer sustentabilidade, por favor.
– Com ou sem hipocrisia?
– Com. Pode Caprichar.
Sexta eu estava indo para o trabalho quando me deparei com uma cena incomum: um helicóptero sobrevoava baixo e quem estava dentro portava armas enormes e as apontava para fora. Gelei.
Apertei o passo. Talvez algum maníaco estivesse a solta. Vai saber.
Logo em seguida, para piorar, passaram motos com policiais também armados. Muitas motos, cerca de 15. Pensei que era muito azarada. Quem mandara me atrasar? Se tivesse saído mais cedo, mas agora um maníaco estava próximo. Muito próximo.
De repente, vários carros de polícia passaram, todos igualmente armados, com fuzis para fora da janela.
Vinham seguidos de carros pretos intercalados aos carros azuis e brancos e de outras motos da polícia que chegavam.
Quando pensei que tudo havia acabado, que eles já tinham seguido o percurso, pude então respirar mais leve e andar mais devagar.
Pena que não por muito tempo.
Logo em seguida vi uma sequência de imagens absurdas. Carros militares com dezenas de soldados armados em cima e tanques de guerra passando na rua. Sim, tanques de guerra.
Foi então que entendi o que estava acontecendo.
Era uma das delegações do Rio + 20 que tinha acabado de passar.
Poxa, que alívio. Mas que tolice a minha preocupação.
Pensar que policiais e soldados estavam combatendo o crime justo numa semana daquela importância. Claro que o Rio tem que parar, que o trânsito tem que parar, que eu tenho que parar para um evento dessa magnitude.
Afinal, quer cidade mais sustentável? A gente faz até coleta seletiva, ué. Tá cheio de lixeirinha colorida espalhada por aí, não estão vendo?
Sem falar no cuidado com a limpeza da cidade. Impecável.
Não tem sujeira, não tem poluição. A Lagoa Rodrigo de Freitas e o Canal de Marapendi estão com as águas cristalinas como nunca, mas as pessoas vivem tão preocupadas com esse lance de sustentabilidade que não dá nem tempo de banharem-se. Uma pena.
Nem mesmo o prefeito consegue. Um homem tão ocupado, coitado. Tá nessa luta tentando repassar para o mundo essa mensagem e fazendo do Rio um lugar muito melhor para se morar.
Já melhorou a saúde pública, o acesso à educação, as condições de vida e agora está tentando passar essa linda mensagem da sustentabilidade ao mundo.
Ai gente, não sei porque vocês reclamam tanto.
Tá lindo, tá limpo, tá verde. Só dá uma melhorada no chroma key, repinta as casinhas coloridas, bota umas arvorezinhas onde tá meio acabadinho pra tapar, e derruba umas pontezinhas aqui e ali. Pronto. Lavou tá novo.
Vem 2014, vem com tudo.
– Eu vou querer sustentabilidade, por favor.
– Com ou sem hipocrisia?
– Com. Pode Caprichar.
Sexta eu estava indo para o trabalho quando me deparei com uma cena incomum: um helicóptero sobrevoava baixo e quem estava dentro portava armas enormes e as apontava para fora. Gelei.
Apertei o passo. Talvez algum maníaco estivesse a solta. Vai saber.
Logo em seguida, para piorar, passaram motos com policiais também armados. Muitas motos, cerca de 15. Pensei que era muito azarada. Quem mandara me atrasar? Se tivesse saído mais cedo, mas agora um maníaco estava próximo. Muito próximo.
De repente, vários carros de polícia passaram, todos igualmente armados, com fuzis para fora da janela.
Vinham seguidos de carros pretos intercalados aos carros azuis e brancos e de outras motos da polícia que chegavam.
Quando pensei que tudo havia acabado, que eles já tinham seguido o percurso, pude então respirar mais leve e andar mais devagar.
Pena que não por muito tempo.
Logo em seguida vi uma sequência de imagens absurdas. Carros militares com dezenas de soldados armados em cima e tanques de guerra passando na rua. Sim, tanques de guerra.
Foi então que entendi o que estava acontecendo.
Era uma das delegações do Rio + 20 que tinha acabado de passar.
Poxa, que alívio. Mas que tolice a minha preocupação.
Pensar que policiais e soldados estavam combatendo o crime justo numa semana daquela importância. Claro que o Rio tem que parar, que o trânsito tem que parar, que eu tenho que parar para um evento dessa magnitude.
Afinal, quer cidade mais sustentável? A gente faz até coleta seletiva, ué. Tá cheio de lixeirinha colorida espalhada por aí, não estão vendo?
Sem falar no cuidado com a limpeza da cidade. Impecável.
Não tem sujeira, não tem poluição. A Lagoa Rodrigo de Freitas e o Canal de Marapendi estão com as águas cristalinas como nunca, mas as pessoas vivem tão preocupadas com esse lance de sustentabilidade que não dá nem tempo de banharem-se. Uma pena.
Nem mesmo o prefeito consegue. Um homem tão ocupado, coitado. Tá nessa luta tentando repassar para o mundo essa mensagem e fazendo do Rio um lugar muito melhor para se morar.
Já melhorou a saúde pública, o acesso à educação, as condições de vida e agora está tentando passar essa linda mensagem da sustentabilidade ao mundo.
Ai gente, não sei porque vocês reclamam tanto.
Tá lindo, tá limpo, tá verde. Só dá uma melhorada no chroma key, repinta as casinhas coloridas, bota umas arvorezinhas onde tá meio acabadinho pra tapar, e derruba umas pontezinhas aqui e ali. Pronto. Lavou tá novo.
Vem 2014, vem com tudo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Eu mudei...
Sim, e agora é pra valer.
Nada de pensar no passado, nas escolhas erradas, no arrependimento.
Agora sei bem o que eu quero e não vou mudar.
Sei que já disse isso antes, mas agora é diferente.
Tá, já disse isso antes também, mas agora é sério mesmo.
Não me olha com essa cara.
Eu sei que você nem me conhece, que não sabe o quão decidida eu sou. Mas pode confiar.
Não vou mais mudar de ideia.
Vamo lá, eu vou querer três esfihas de carne, duas de queijo, um croquete e uma coca media.
Pra viagem, por favor.
domingo, 10 de junho de 2012
festa ..., gente ...
Não
era uma festa qualquer, não senhor.
Pessoas
a minha volta dançavam de um jeito estranho. Cabelos chicoteavam
rostos alheios, que por sua vez não se incomodavam.
Tocava
uma música da qual nunca ouvira antes. Mas o Dj interagia com o
público como se fossem amigos de longa data.
Conforme a mudança de faixa, as pessoas vibravam e sacolejavam ainda mais os cabelos. Tentei entender, mas era um ambiente totalmente novo e fora do meu conhecimento.
Conforme a mudança de faixa, as pessoas vibravam e sacolejavam ainda mais os cabelos. Tentei entender, mas era um ambiente totalmente novo e fora do meu conhecimento.
Comecei
a me sentir como um antropólogo adentrando numa tribo indígena
alheia a civilização e comecei a pensar na situação contrária.
Como as pessoas deviam me ver?
Eu
não estava dançando. Meus cabelos não chicoteavam ninguém, minhas roupas eram diferentes das deles. Usavam uma mistura berrante de cores, que era impossível não reparar.
Não
me vestia como eles, não que isso me incomodasse, muito menos
o fato de as pessoas serem diferentes de mim, mas era apenas um fato
a ser observado.
Pensei
que seria difícil de imaginar que eles não tinham me observado como
eu observara eles. Afinal, dividíamos o mesmo ambiente.
E
se o estranho fosse eu? Com minha maniazinha de parar com os pés
arcados e um olhar de seriedade aparentemente inabalável. Uma
composição da minha armadura gélida, da qual preciso urgentemente
me livrar.
Enfim
percebi que esse conceito de estranho é muito relativo. Talvez se
uma dessas pessoas estivessem num ambiente familiar para mim, elas
seriam as estranhas. Mas naquele momento o estranho na verdade era
eu.
Mas
não precisei agir igual a eles para me sentir bem vinda.
A
gente se entende. Eu com meus pensamentos imutáveis e eles com os
deles. Uma relação de respeito que, aliás, muitos precisavam
aprender.
Pessoas
são diferentes, gostos são diferentes, pensamentos são diferentes.
Não
é preciso fazer igual, somente aprender que no mundo não ninguém
igual a você e que não há nada errado nisso.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Conto de Fadas
Ela era meio gordinha, tinha cerca de 1,40m e usava um vestido rosa bem
espalhafatoso. Segurava um pedaço de madeira nas mãos, estranhamente compatível
com os galhos da árvore mais próxima, mas relevei.
A figura chegou perto e veio dizendo que era minha fada madrinha. Daí fui
me afastando, peguei o celular que estava no meu bolso e comecei a tocar as teclas
sem muito sentido, tentando fazê-la desistir. Falhei.
Ela continuou a falar ao meu lado, então sem muita escolha, resolvi prestar
atenção.
Ela estava fazendo uma previsão: disse que naquele dia eu iria receber
uma ligação inesperada de uma pessoa que já conhecia e que iria me convidar
para sair.
Ela afirmava que era uma pessoa especial e que passaria a vida toda ao
lado dela, que seríamos muito felizes e que teríamos uma relação de
companherismo ideal. Sem cobranças, ciúmes ou intrigas.
Fiquei perplexa. Será que ela estava falando a verdade? E a baboseira, na
qual sempre fui cética sobre, era real no final das contas?
Até que meu ônibus chegou. Me despedi da senhorinha com um aceno e entrei
pela porta da frente. Quando olhei para trás ela não estava mais lá.
No meio do caminho meu celular tocou. Era um carinha que havia pego meu
número há alguns anos, mas nunca havia me ligado antes.
Atendi o sujeito dizendo “alô” e em resposta ouvi um “qual é, gatinha”.
Resolvi ignorar e dar uma chance a ele. Não ia mais me deter a pequenos
detalhes incomodos.
Continuamos conversando e ele me chamou para sair. Aceitei.
Combinamos dele me pegar em casa às 20h. Até lá fiz as unhas, comprei uma
roupa nova, fiz hidratação e no horário estava pronta.
O problema é que já eram 21:30h e ele ainda não havia dado sinal de vida.
Então liguei para saber o que tinha acontecido.
Ele disse que pegara no sono e que seus créditos haviam acabado e que,
por isso, não conseguiu me ligar. Mas que já estava saindo de casa e me pediu
para descer em 5 minutos. Meio contrariada, fiz o que ele disse.
Passaram-se 5, 10, 15 minutos e nada dele. Quando deu 30 minutos fiquei irritada.
Nesse momento ele apareceu.
Seus cabelos despenteados e camisa amarrotada. Regata para ser mais
exata. Me abraçou e pude sentir o cheiro forte da colônia que ele estava usando.
Espirrei.
Quando ele disse “vamos”, ao mesmo tempo meu celular tocou. Era uma grande
amiga que estava passando por perto e queria reunir as meninas para sentar,
tomar um chope e falar besteira.
Na mesma hora disse “claro, me espera aí que já encontro você”.
O rapaz ficou confuso. Perguntou o que estava acontecendo, então eu disse
que ele tinha demorado tanto que coincidiu justamente com o encontro que eu
tinha em seguida.
Deixei ele sozinho confuso, acenei e saí para encontrar as meninas.
Por fim, não é que a senhorinha estava certa? Recebi uma ligação de
alguém que levaria para a vida inteira. Que me chamou para sair com outras
pessoas também companheiras, que não tinham ciúmes, não faziam intrigas e nem
cobranças. E era exatamente com elas que queria estar naquele momento.
Desde então, eu acredito em contos de fadas.
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